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BOPE: A tropa revelada


Texto Alexandre Versignassi, Leandro Narloche e Rodrigo Ratier, Com Reportagem de Fátima Souza, Nina Weingrill, Elisa Menezes e Natália Suzuki.
A história das polícias de elite começa na cidade mais perigosa do mundo. O crime organizado por lá está mais forte que o Estado. Graças ao tráfico, os bandidos se armam como nunca. E matam como sempre. Quem der um passeio pelos bairros mais perigosos corre o risco de tropeçar num cadáver. ou de virar um. E a polícia, corrupta, é conivente com tudo.
Estamos falando de Xangai, China. Era a década de 1920, quando a cidade sofria nas mãos da Gangue Verde, um bando com milhares de integrantes que dominava o tráfico de ópio. Poderoso e bem gerenciado, o grupo ditava as regras. E agora? “Nesses casos, todo policial tem que escolher: ou se corrompe, ou se omite, ou vai para a guerra”, diria o Capitão Nascimento, protagonista do filme Tropa de Elite, que virou centro do debate brasileiro nos últimos meses.
E em 1925 o oficial inglês William Fairbairn foi para a guerra. Levou táticas militares para a polícia de Xangai e criou a primeira tropa de elite urbana de que se tem notícia: a Unidade de Reserva, um comando que ficava de prontidão para ajudar a polícia nos casos mais espinhosos. Eram policiais treinados para atirar com armas pesadas, dar golpes de artes marciais e fazer operações táticas, como invadir esconderijos. Até caveirão eles tinham: eram motos com metralhadora no sidecar.
Deu certo, e ao longo do século 20 a idéia de ter uma força de elite para ajudar em tarefas difíceis se espalhou pelo mundo. As polícias começaram a treinar unidades especializadas para combater assaltos, atentados à bomba, seqüestros, fugas de presos... Enfim, para trabalhar em “teatros de operações”, como diz o jargão policial, que exigem um treinamento que não dá para ensinar a todo mundo. Só aos melhores.
A onda chegaria ao Brasil nos anos 70. Foi quando a Polícia Militar de São Paulo criou sua tropa mais temida, a Rota. Também é uma tropa de reserva, como aquela de Xangai: o papel dela não é fazer patrulhas, mas entrar em ação enquanto o crime estiver acontecendo e resolver a questão. Enquanto a Rota já estava na rua por aqui, uma polícia de elite dos EUA começava a ganhar fama mundial. Ela mesma: a Swat (sigla em inglês para “Armas e Táticas Especiais”). Criada no fim dos anos 60 em Los Angeles para enfrentar grupos paramilitares, como os Panteras Negras, essa força policial deu origem a uma série de TV. E suas ações cinematográficas, tal como o uniforme escuro, inspiraram clones pelo mundo.
É o caso do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate), também da PM de São Paulo, feito para resgatar reféns e conter rebeliões em presídios; e do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), da PM carioca. O grupo de Tropa de Elite foi criado em 1978 como uma divisão especializada em combater assaltos a bancos. Para começar o time, 30 policiais fizeram cursos com o Exército. Mas logo o tal teatro de operações se mostrou uma escola bem melhor. Enriquecidos com a venda de cocaína, os traficantes dos morros cariocas começaram a se armar para garantir o domínio do território e os lucros da boca. Com armamento de guerra e terreno favorável (é sempre mais fácil atirar em quem está lá embaixo), os traficantes ganharam força. E a polícia convencional não tinha como lidar com eles sozinha. Solução: chamar o Bope.
O batismo de fogo aconteceu em 1988, quando a PM acionou o batalhão especial para acabar com uma guerra pelo controle de bocas na Rocinha. Daí em diante a principal ação do grupo passou a ser nas favelas, um teatro de operações com espetáculos 24 horas por dia, 7 dias por semana. Tão ativo quanto uma guerra. Com experiência diária, o Bope virou uma polícia única no mundo. Não é à toa que tropas do Exército fizeram um estágio com o Bope, nos morros cariocas, antes de partir para o Haiti. Mas o estágio dos militares não foi nada parecido com o que um policial tem que fazer para entrar no batalhão. Para ser um dos 400 homens que a tropa tem hoje é preciso algo mais: ­ uma temporada no inferno.
ZERO UM, PEDE PRA SAIR
A parte mais simples é como no filme. Durante duas semanas, os alunos dormem no máximo duas horas por dia. Acostumam-se a levar socos e tapas na cara e comem uma mistura de arroz, feijão, carne e massa jogada no chão. O que Tropa de Elite não mostra é que os alunos também fazem provas escritas no escuro e em ônibus em movimento, tratam feridas com sal (isso arde!) e passam madrugadas na água fria de uma represa. Como num ritual de iniciação de uma tribo de índios ou de uma seita religiosa, esses dias darão ao aluno outro comportamento, uma nova concepção de mundo e até outra forma de enxergar a si próprio.
Toda polícia de elite tem cursos específicos para seus novos integrantes. Geralmente duram de um a dois meses e formam policiais especializados em negociação com seqüestradores, resgate de reféns, desarmamento de bombas ou tiro de precisão. No Rio de Janeiro, também é assim: o Curso de Ações Táticas (CAT) foi criado justamente após a trapalhada do Bope durante o seqüestro do ônibus 174, em junho de 2000, quando o seqüestrador e uma refém acabaram mortos. Só que, enquanto os batalhões de elite do resto do Brasil e do mundo param nas operações com reféns, no Rio, o domínio dos morros por traficantes exigiu policiais ainda mais especializados. No Curso de Operações Especiais (Coesp), que dura até 5 meses, eles passam por um treinamento inspirado nas técnicas de combate a guerrilhas que o Exército usou nos conflitos do Araguaia, na década de 1970, além das táticas de fuzileiros navais das Marinhas brasileira e americana. “O que potencializou o treinamento do Bope foi juntar técnicas de guerra para as operações urbanas nas favelas”, afirma Paulo Storani, secretário municipal de Segurança de São Gonçalo (RJ), ex-capitão do Bope e um dos criadores do curso retratado no filme.
Em 2006, de 34 inscritos, apenas 11 conseguiram se formar. Noventa por cento dos que abandonaram caíram nos 15 primeiros dias. Esse período, apelidado de Semana do Inferno, começa com uma aula inaugural em que o aluno passa por uma longa seção de tapas e socos. Depois, mesmo encharcado e com frio, o policial tem de seguir nos exercícios, que podem durar até 3 horas dentro da água. Às vezes, essa rigidez misturada com irresponsabilidade acaba em tragédia: em 2003, um tenente morreu vítima de afogamento após sofrer hipotermia. Casos assim trazem à tona a pergunta: por que os policiais precisam passar por tanto sofrimento?
Para o Bope, as surras servem para duas coisas. Primeiro, dissuadir soldados pouco determinados. “A Semana do Inferno visa separar o joio do trigo”, diz o tenente-coronel Alberto Pinheiro Neto, comandante do batalhão. Segundo, para que eles percam noções de hierarquia, conforto e humilhação, mantendo a sobriedade em situações- limite. A experiência de dar ou levar um soco na cara deixa de ter o significado que tem para pessoas comuns. “No curso, a auto-estima passa a valer mais que o sono e a alimentação”, diz o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, um dos autores do livro Elite da Tropa, que inspirou o filme.
Mas a rigidez tem um efeito colateral – estimular a violência desmedida. Talvez por isso haja tantas denúncias de torturas cometidas pelo Bope (veja na página 66). E não são só ongs de direitos humanos que pensam assim. “O treino deve ser rigoroso, mas dar tapa na cara e ofender só serve para satisfazer instrutores sádicos”, diz David Ribeiro, ex-coronel da PM de São Paulo e hoje um psicólogo que estuda a mente dos policiais.
Talvez a truculência do curso possa ser explicada pelos rituais de iniciação descritos pela antropologia. Se índios pintam o corpo, os aspirantes têm o cabelo raspado e mudam de nome (passam a se chamar por números). “Esse é o processo de separação, em que eles perdem a identidade antiga e iniciam um período de conquista de uma nova identidade para si próprios”, diz Paulo Storani, que prepara uma dissertação de mestrado sobre a construção da identidade do policial do Bope.
Depois de deixar os costumes antigos, vem a hora de aprender um novo jeito de ser. Os alunos passam por uma jornada de aulas técnicas, quando aprendem montanhismo, mergulho e, claro, aulas de tiro em movimento, em favelas montadas com lona. “Nessa fase, o aluno também recebe os novos valores que vão identificá-lo como policial de elite, como as canções do batalhão e o jeito de falar”, diz Storani.
Com o fim do curso, o policial enfim tem direito a vestir a farda e a boina pretas – motivo de orgulho maior que os R$ 500 de adicional no novo salário. “Não dá para traduzir como a boina preta e o braçal são importantes para nós”, diz um policial da Rota de São Paulo, que também adota um uniforme assim. No Bope, outro símbolo de identidade é o emblema da faca na caveira. Pode parecer infantil e estranho um grupo criado para assegurar a paz ter uma caveira como símbolo. Mas ela faz todo sentido para eles. Significa a ação vitoriosa e rápida (da faca) sobre a morte (a caveira). O símbolo também os diferencia na hora mais importante: o ataque.
HOMEM DE PRETO, QUAL É SUA MISSÃO? ENTRAR PELAFAVELA E DEIXAR CORPO NO CHÃO
“Quando ninguém consegue resolver, chamam o Bope”, diz o Capitão Nascimento do filme. E o da vida real também. Com a palavra, Rodrigo Pimentel, que usou sua experiência no Bope para escrever o livro e serviu de base para a construção do personagem: “Os traficantes tinham invadido uma casa para se esconder. Atiravam, e acabaram acertando a perna de um PM. A polícia não conseguia mais sustentar a situação. Chamou o Bope. Era uma favela em Niterói. Cheguei com a minha equipe de 8 homens. Os bandidos diziam que estavam com reféns... E eu não tinha levado um negociador [policial treinado para dissuadir criminosos]. Sabia que eles estavam bem armados, já que o barulho de um fuzil AK-47 é bem característico. Eram 11 da noite. Como tinha o tempo a meu favor, esperei amanhecer. Mandei o Gláucio, um soldado muito valente, ir rastejando até a casa para arremessar uma granada pela janela. Uma granada não letal, do tipo ‘luz e som’. Mas ela não entrava. Batia na janela e acabava estourando do lado de fora. Aí o Gláucio sugeriu que a gente abrisse um buraco na casa. À bala. Atiramos com os fuzis e deu para abrir um rombo do tamanho de uma bola de futebol. Então jogamos a granada. Funcionou: conseguimos invadir a casa sem matar os marginais.”
O capitão Rodrigo tinha 24 anos. E esse foi só o fim de mais um dia de trabalho nos anos em que ele bateu cartão no Bope, entre 1995 e 2000. Depois da noite em claro, acabava seu turno de 24 horas.
Também rolam ações planejadas com antecedência, principalmente para invadir depósitos de armas, esconderijos de drogas e capturar foragidos. Nesses casos, o fator-surpresa é fundamental. Daí o lado Swat aparece para valer. Uma das táticas é subir morros por trás e descer de rapel para atacar o inimigo de surpresa (veja abaixo); outra, cercar uma favela de forma ostensiva, com um monte de viaturas, dando toda a bandeira de que vão subir em busca de algo ou alguém. Aí, quando a atenção dos traficantes dos morros ao redor estiver voltada para a invasão iminente, o Bope sobe o morro vizinho para pegar todos desprevenidos. Às vezes acontece algo mais pitoresco, como quando mandaram a PM matar os cachorros de uma favela durante o dia, dizendo que era por causa de uma epidemia de raiva, para invadirem à noite sem os latidos que alertariam os traficantes.
Na hora de subir o morro, os soldados vão em patrulhas pequenas e silenciosas, de 8 a 20 homens. O homem mais habilidoso vai na frente, guiando o grupo pelos becos das favelas. Outros ficam com a tarefa de proteger as laterais e a retaguarda. “A patrulha caminha com olhos para todos os lados”, diz o ex-capitão Paulo Storani.
E se algum traficante armado aparecer para esses olhos todos? Como em qualquer batalhão, não faltam os “dedo-mole”, como os policiais chamam os colegas que não agüentam ficar sem dar um tiro. Além disso, a marca das polícias de elite é a truculência. Um integrante da Rota, a contrapartida paulistana ao Bope no quesito “botar pavor”, conta: “A gente já chega de um jeito violento: desce da viatura escancarando as portas e olhando todo mundo como suspeito. No batalhão e nas viaturas a conversa é sempre a mesma: ‘Quantos você já derrubou?’ O policial que matou mais ganha respeito”.
Se a violência é maior, pelo menos a corrupção tende a ser mais branda no caso das tropas especiais. O motivo principal é que essas tropas não fazem patrulhamento em lugares fixos e têm de agir rápido. Isso torna mais raras as oportunidades de pedir caixinha em troco de vista grossa. No Bope, a coisa virou questão de honra. Caveira não se suja com isso. Ponto. O livro Elite da Tropa até relata a execução de um soldado corrupto pelos colegas. Claro que Rodrigo Pimentel não confirma. Mas também não desmente. Apenas diz: “O Bope abomina corrupção. Não tolera. Quando um policial novato roubou o relógio de um traficante, virou inquérito, e ele acabou afastado”.
Ok. Mas esse comportamento exemplar não se aplica quando o crime é outro, ainda mais grave que corrupção: a tortura.
HOMEM DE PRETO, O QUE É QUE VOCÊ FAZ? EU FAÇO COISAs QUE ASSUSTAM satanás
Capaz de abalar o próprio coisa-ruim, o arsenal de torturas de Tropa de Elite realmente faz parte do cotidiano do Bope e de outras tropas especializadas do Brasil. As ongs denunciam. “São muitos os relatos de torturas policiais nas comunidades, desde tapa na cara, abuso sexual contra mulheres ou introduzir canos no ânus da vítima”, afirma a socióloga Sandra Carvalho, diretora da Justiça Global, uma das ongs de direitos humanos mais atuantes do Brasil. As autoridades negam. “Não admitimos irregularidades. Verificamos as denúncias e punimos exemplarmente quando há comprovações”, diz Pinheiro Neto, comandante do Bope. O comandante da Rota, Roberto Antonio Diniz, faz coro: “A prática não é usual. Se vier a acontecer, será tratada com todo o rigor”.
Em off, atuais e ex-integrantes das tropas de elite confirmam que, sim, senhor, há tortura. Em Elite da Tropa, surgem métodos que deixam no chinelo o onipresente saco de asfixia (veja exemplos no quadro abaixo). “No livro, misturamos e recombinamos propositalmente cenários, fatos e personagens para que ninguém pudesse identificar as ações. Mas basta fazer um levantamento de 10 anos da crônica policial para encontrar os fatos narrados”, afirma um dos autores da obra, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, secretário de Prevenção à Violência de Nova Iguaçu (RJ) e ex-subsecretário estadual de Segurança Pública do Rio. Na Rota, um policial há 4 anos no batalhão conta que, “quando um bandido é preso, antes de ir para a delegacia sempre toma um ‘caldo’ [surra]”.
Não dá para dizer que esses são casos isolados. O Brasil nasceu torturando. Usada no período colonial para punir negros e índios, a caixa de maldades ganhou respaldo oficial na ditadura. Hoje, os herdeiros da prática agem sem ser incomodados. Entre 2001 e 2003, a Campanha Nacional de Combate à Tortura encaminhou ao Ministério Público 778 casos de tortura praticada por agentes do Estado. Apenas 0,7% resultou em algum tipo de condenação.
Tortura é crime. Parece óbvio, mas no Brasil isso é verdade recente. Apenas em 1997 o crime de tortura foi definido por lei: empregar a violência para provocar sofrimento físico ou mental. O sofrimento físico é causado pelo mix cruel descrito nesta página, técnicas que pouco mudaram desde os tempos da Inquisição – salvo uma ou outra inovação, como o uso da eletricidade ou obrigar garotos boca-suja a beber detergente. O sofrimento psicológico vem de símbolos como o Caveirão (veja o infográfico da página seguinte). A acusação é anunciar pelo alto-falante ameaças do tipo “Crianças, saiam da rua, vai ter tiroteio” ou “Se você deve, vou pegar sua alma”. Na invasão policial ao Complexo do Alemão, em maio deste ano, há denúncias de moradores que teriam sido surrados e urinados dentro do blindado.
A sobrevivência da tortura é sintoma da incompetência policial: como o investigador não consegue na boa as informações de que precisa, apela para a ignorância. “Sem contar com a empatia da população, a polícia não consegue que os moradores forneçam voluntariamente dados para desvendar um crime”, diz o jurista Oscar Vilhena, professor da FGV e diretor da ong Conectas Direitos Humanos. Dar um fim à tortura passa por atacar a impunidade e aproximar polícia e povo. A receita dá resultado em São Paulo, como você vai ver a seguir. Já no Rio, a regra é outra. “Porrada em vagabundo, execução de marginal, esse departamento é com a gente”, como diz um caveira de Elite da Tropa.
TODO POLICIAL TEM QUE ESCOLHER: OU SE CORROMPE, OU SE OMITE, OU VAI PRA GUERRA
A polícia do Rio escolheu: foi pra guerra. Matou como nunca: seus índices de letalidade são os mais altos do Brasil. O Bope foi junto, invadiu favela e deixou corpo no chão. Adiantou? A criminalidade diminuiu? A bandidagem se assustou? Em resumo: o Brasil precisa de mais Capitães Nascimento? Uma análise dos resultados dessa política ajudam a responder essas perguntas.
O que mudou - Especialistas em segurança pública apontam a gestão do governador Marcello Alencar (1995-1999) como o período em que a polícia começou a guinada para a brutalidade que permanece até hoje. Para coibir o crime, o governador implantou uma gratificação por “atos de bravura” (um eufemismo para matar) que se incorporava ao salário dos policiais. Apelidado de “premiação faroeste”, o bônus foi o ponto de partida para a escalada da violência policial. Entre 2000 e 2006, o índice de mortos pela polícia a cada 100 mil habitantes aumentou 134% (veja os gráficos na página seguinte). O número de civis assassinados para cada policial morto passou a ser 4 vezes maior que a média mundial. E o total de prisões caiu 43%.
O que melhorou - Pouca coisa, se consideramos o período 2000-2006. A apreensão de armas subiu 29% e a de drogas, 5%. O índice de estupros a cada 100 mil habitantes caiu 6% e o de homicídios diminuiu 4%, mas segue entre os mais altos do planeta. Bairros como Inhaúma têm taxas de homicídios superiores às de Bagdá.
O que piorou - Quase todos os crimes. Desde 2000, a taxa de roubos por 100 mil habitantes subiu 39%; o índice de furtos piorou ainda mais, disparando 47% no mesmo período.
A conclusão é de que a política do atirar para matar não funcionou. Além de não conter o crime e o tráfico, a violência da polícia provocou 3 problemas inesperados. O primeiro deles foi a corrida armamentista, tanto de policiais quanto de traficantes. O segundo foi o aumento da corrupção. Como o que está em jogo agora é a vida (e não mais a prisão) do bandido, ele vai pagar mais – e para mais pessoas – para não morrer. Terceiro, a violência gerou mais violência. “Quando a polícia deixa de aceitar rendições, os criminosos sabem que não há escolha: eles lutam até a morte, levando junto o máximo de pessoas”, afirma o antropólogo Luiz Eduardo.
Resistindo à chuva de balas, o tráfico segue sendo o maior inimigo das favelas. Apenas nos anos 90, a bandidagem organizada no Rio causou cerca de 20 mil mortes, pôs armas nas mãos de crianças, estraçalhou famílias e disseminou a corrupção. Não dá para glamorizar esse tipo de coisa. É preciso vencê-la.
Mas, se atirar não adianta, como derrotar o crime? Já há algumas pistas. “Todos os países que reduziram os índices de criminalidade foram os que melhoraram as relações entre polícia e comunidade”, diz o jurista Oscar Vilhena. O princípio básico dessa aproximação é o legalismo. Respeitar a lei para se fazer respeitar, combinando eficiência policial com direitos humanos, menos crime com menos sangue. Nada disso é impossível. Está acontecendo no Brasil, em estados como São Paulo, que em 7 anos reduziu sua taxa de homicídios em 54% (veja os gráficos abaixo). Tirando certos espasmos de truculência – alguns gravíssimos, como a morte de 493 suspeitos em apenas 8 dias de vingança policial contra os atentados do PCC, em maio de 2006 –, a polícia paulista se tornou menos violenta e ficou mais eficiente nas investigações. Contou ainda com melhorias no sistema judiciário – tanto que a população prisional cresceu 26% entre 2002 e 2005, agravando a superlotação das cadeias.
O caso carioca é mais complicado. O fato de o Estado dividir território com bandos de marginais nos faz retroceder 700 anos, nos joga de volta à Idade Média. Lá atrás, os senhores feudais usavam seus exércitos para guerrear entre si. Vencia o mais forte. Isso foi regra até os baronatos serem submetidos por um poder central – o Estado moderno, que passou a ser o único autorizado a usar a força. Batizamos isso de processo civilizatório. “Da mesma forma, para exercer sua força legítima sobre o tráfico, o Estado precisa de instrumentos para fazer respeitar as leis democraticamente concebidas. Esse instrumento é a polícia”, afirma Luiz Eduardo. É aí que entram as tropas de elite. O país não precisa da ferocidade de Capitães Nascimento – essa foi a opinião de todos os 6 especialistas em segurança pública ouvidos pela Super –, mas precisa de tropas de elite como o Bope e a Rota. Por incrível que pareça, elas podem ser as menos letais de todas, desde que respeitem a lei. “Com comportamentos dentro da legalidade, as polícias que produzem menos danos são as mais bem equipadas e bem treinadas. Elas atiram menos, erram menos, se protegem melhor e sua presença impõe rapidamente a rendição. Usam só a violência estritamente necessária”, diz Luiz Eduardo. Essa elite ideal pode ser encontrada no próprio Bope. Nem todas as unidades agem com violência desmedida – há muitos oficiais legalistas, um exemplo do melhor que a polícia pode produzir. Contrariando um dos hinos da tropa, esses policiais não pegam geral. Fazem melhor: pegam apenas quem realmente interessa. CADA UM POR SI
Além do cansaço físico, da falta de sono e alimentação, o aspirante enfrenta exercícios de luta corporal com vários adversários ao mesmo tempo. Entre eles, estão atletas profissionais de vale-tudo e jiu-jítsu. 
SALMOURA
Depois de cavalgar por horas em cavalos sem sela, os alunos ficam cheios de feridas nas pernas e na bunda. Para que não inflamem, precisam sentar na salmoura – uma bacia com sal grosso. Alguns desmaiam de dor.
GRANADA
No filme, um aluno que pega no sono numa aula teórica ganha uma granada para segurar. Se dormir de novo, o artefato cai no chão e explode. Para o ex-Bope Rodrigo Pimentel, a cena acontece, sim. E a granada é de verdade. DOIS POR UM
As favelas são cheias de becos. Então o Bope multiplica seu poder de fogo com um homem apontando a arma por baixo e outro por cima. Se começar um tiroteio, o de baixo deita, o de trás se agacha e vem um 3º homem na cobertura.      
SURPRESA
Uma tática para chegar na surdina é subir a encosta de um morro e descer pelo outro lado, de rapel, direto no alvo. No escuro, o ideal é usar óculos de visão noturna – que eles não têm, mas pedem emprestado. 
RODA DE FOGO
Quando estão num campo aberto e precisam proteger um policial falando no rádio ou alguém ferido, os caveiras apontam as armas em círculo, posição que chamam de “três-meia-zero” (isso mesmo, 360° em policialês). PM
• Fuzil FAL
Espingarda calibre 12
Pistola Taurus PT 92
Revólver Taurus .38
Granada de efeito moral
BOPE
Fuzil HK PSG
Fuzil Para-FAL
Fuzil AK-47
Fuzil Colt M4A1
Fuzil HK G3
Submetralhadora HK MP5
Fuzil Colt M-16
Granada de Luz e som
Metralhadora leve HK21 A1
Carabina M-1
Pistola Taurus PT 92
Pistola Taurus PT 100
Explosivos Militares
BANDIDOS
Fuzil HK psg
Fuzil HK G-3
Carabina a.30
Revólver Magnum 357
Fuzil MD 2
Fuzil Colt M-16
Pistola Glock g-17
Pistola Taurus PT 92
Fuzil AK-47
submetralhadora uzi
Revólver Taurus .38
Pistola Taurus PT 100
Granadas
Metralhadora browning 0.50
Fuzil AR-15 lança-granada
Fuzil Colt commando m4
Minas Terrestres Antipessoais TELEFONE
Com as mãos em forma de concha, o torturador bate por trás nos ouvidos da vítima. A pancada desnorteia, causa dores agudas e pode até estourar os tímpanos. O filme Tropa de Elite insinua o uso da técnica até no curso do Bope.
PICADA
Consiste em enfiar agulhas ou farpas de madeira entre a carne dos dedos e as unhas do torturado. As dores são lancinantes. Aparece em denúncias contra o Dops (órgão de repressão da ditadura militar), a Rota e o Bope.
GOLFINHO
Descrita no livro Elite da Tropa, a técnica consiste em colocar o torturado dentro de uma caixa d’água com dois fios de eletricidade. Atingida pela corrente elétrica, a vítima se contorce como um “golfinho de Miami”. Um carro-forte, semelhante aos que transportam dinheiro, capaz de chegar aos 120 km/h, recheado com 11 homens e blindagem antifuzil. É assim que o Bope entra em regiões expostas ao fogo dos traficantes.
Bonde da pm
O Caveirão leva 11 policiais. Oito ficam sentados nas laterais do veículo – 4 virados para cada lado. Ao lado do motorista, segue um homem armado, com a função de repelir ataques frontais. Na torre do blindado, um policial age como se fosse o canhão de um tanque de guerra.
Boas-vindas
O Caveirão costuma ser recebido a tiros de AK-47 e granadas. Para resistir ao ataque, tem blindagem de chapas de balístico, um aço vitaminado que agüenta o fogo inimigo por alguns momentos. Mas, se muitas balas atingirem o mesmo ponto, elas perfuram a proteção e acabam dentro do veículo.
Tiro ao álvaro
A mira não é lá essas coisas: as seteiras, espécie de buracos protegidos por portinholas, permitem aos policiais mover suas armas cerca de 50 graus para cima e para baixo.
Aros de aço
Um anel de aço reforçado instalado dentro de cada pneu garante que o carro não pare se as rodas forem alvejadas. Em caso de tiro, o blindado consegue rodar cerca de 20 km a 80 km/h. Elite da Tropa
Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel, Objetiva, 2005.
Notícas de uma Guerra Particular
Documentário de João Moreira Salles e Kátia Lund, 1999.
Rota 66
Caco Barcellos, Record, 1992.v
http://super.abril.com.br/superarquivo/2007/conteudo_545660.shtml

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