BBC Brasil - Número de ex-policiais eleitos deputados aumenta 25%

Número de ex-policiais eleitos deputados aumenta 25%

Parlamentares devem se unir para trabalhar temas de segurança pública 

BBC Brasil
Discurso de herói atinge o emocional dos eleitores, diz especialistaAgência Brasil
O número de parlamentares ex-policiais eleitos no pleito de domingo cresceu 25% em relação à eleição anterior. Segundo especialistas ouvidos pela BBC Brasil, esses deputados federais e estaduais tendem, além de se dedicar ao tema da segurança, a se organizar em "bancadas" para defender temas ligados à classe policial e para apoiar posições políticas comuns.
Segundo dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), policiais militares, civis e federais conquistaram 55 cadeiras nas assembleias estaduais e na Câmara federal nas eleições deste ano. No pleito anterior, o número de cargos alcançados foi de 44.

Dos parlamentares ex-policiais eleitos no domingo, 15 são deputados federais e 40 estaduais.
De acordo com analistas, no Legislativo — principalmente na Câmara Federal — esses parlamentares tendem a trabalhar com temas relacionados à segurança, como debates sobre mudanças na legislação penal e no Estatuto da Criança e do Adolescente, a reforma do sistema prisional e políticas sobre drogas e menores infratores.
Entre os temas que devem estar na agenda desses novos parlamentares, devem estar ainda a regulamentação dos papéis das polícias, a redução da maioridade penal e a punição mais dura a criminosos que cometem crimes contra policiais.
Organização
Para a cientista política Maria Teresa Micelli Kerbauy, da Unesp (Universidade Estadual Paulista), o crescimento da bancada de ex-policiais nos legislativos estaduais e federal está ligada ao fato de a violência ser um dos temas que mais preocupam os eleitores, sendo um dos principais assuntos da agenda política brasileira
Além disso, interesses de classe e as críticas sofridas pela polícia por sua atuação dura nas manifestações ocorridas entre junho de 2013 e a Copa do Mundo neste ano foram mais um estímulo para que membros das forças de segurança se voltassem cada vez mais para a política.
"Eu acredito que eles [policiais] resolveram se organizar. É uma tendência que já vinha acontecendo, mas que se intensificou", disse ela.
"Eles resolveram se colocar como representantes da categoria [no Legislativo] e defender os interesses da classe".
Bancada
De acordo com a cientista política, mais numerosos no Legislativo, os ex-policiais tendem agora a formar bancadas para tentar votar temas de segurança — o que pode acontecer até de forma independente das posições de seus partidos.
O ex-deputado estadual e recém-eleito deputado federal major Olímpio Gomes (PDT-SP) disse que a aproximação dos parlamentares ex-policiais já está acontecendo. "Vamos trabalhar de forma suprapartidária para melhorar a segurança pública", afirmou.
De acordo com ele, por outro lado, isso não significa que esses parlamentares restringirão sua atuação ao campo da segurança. "Vamos a fundo em todas as áreas, como saúde, educação e transporte, mas não se pode desconsiderar a especialidade [em segurança] desses deputados".
Segundo Gomes, a articulação dos policiais na política já vem acontecendo de forma lenta há muitos anos, mas os candidatos ainda não conseguiram canalizar todos os votos que teriam capacidade de obter.
— Só em São Paulo, familiares e amigos de policiais podem formar um grupo de mais de 1,6 milhão de eleitores. Os grupos religiosos se juntam, os sindicalistas se juntam, os empresários se juntam — os policiais estão fazendo a mesma coisa.
Para o presidente da Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, Marcos Leôncio Ribeiro, os ex-policiais podem usar no Legislativo suas habilidades de investigação para exercer o papel de fiscalização e controle das ações do governo.
Eleitorado
De acordo com Kerbauy, não são apenas os policiais, seus familiares e amigos que formam o eleitorado dos candidatos ex-policiais.
Parte da população, diz a analista, é favorável ao discurso usado por alguns desses candidatos — que, em linhas gerais, pregam que a melhor forma de combater a criminalidade é uma polícia mais robusta e enérgica.
Os que mais recebem votos seriam aqueles que usam o discurso do policial heroico, na "frente de combate", para atingir o emocional no eleitor, segundo Marcos Fuchs, diretor adjunto da organização de defesa de direitos humanos Conectas.
Os ex-delegados ou ex-secretários de Segurança teriam um apelo menor.
"Eles [candidatos ex-policiais] pegam carona nos altos índices de criminalidade. Usam o discurso de que falta polícia dura, polícia séria, e isso dá votos", afirmou.
Porém, segundo Fuchs, o discurso de parte desses candidatos preocupa organizações de direitos humanos — que temem que eles ofereçam resistência no Legislativo a deputados alinhados com as pautas dessas entidades.

http://noticias.r7.com/eleicoes-2014/numero-de-ex-policiais-eleitos-deputados-aumenta-25-07102014