6 - Acompanhamento (Follow-through)



Fundamentos do Tiro: Acompanhamento (Follow-through)


Sexto e último artigo da série Fundamentos do Tiro de autoria do medalhista pan-americano e técnico de Tiro Esportivo Silvio Aguiar




Acompanhamento (Follow-through)

Acompanhamento, o último fundamento do processo do Tiro Certo é na realidade, a tomada e a manutenção da atitude correta de execução do processo.


A palavra em inglês utilizada para denominar esse fundamento define melhor o seu significado: follow-through, onde “follow” representa acompanhamento, e “through” representa sem interrupção, ou seja, até o fim.


Dessa forma, usaremos o termo em inglês, e para não ter que reescrevê-lo várias vezes no decorrer do artigo, empregarei no seu lugar a sigla FT.

A expressão “acompanhar” pressupõe manter nossa mente consciente atenta à (ocupada com a) ação em andamento, sincronizando corpo e mente, ou seja, mantendo uma atitude mental de total atenção ao processo em execução.


Antes de prosseguir, devo lembrar que vivenciamos dois estados de atenção: a atenção voltada para o aprendizado e treinamento (atenção crítica), e a atenção voltada à realização confiante da habilidade motora treinada (atenção confiante).


Se você leu o artigo “Atitude de Competição”, deve se lembrar que distinguimos, da mesma forma, a abordagem de aprendizado e treinamento como sendo crítica, e a abordagem de competição como sendo confiante.


Transcrevo aqui dois parágrafos desse artigo:


Na abordagem crítica, o atirador analisa cada ação, comparando-a a um modelo mental pré-estabelecido, realizando as correções necessárias para reproduzi-lo; na confiante, o atirador simplesmente executa a ação. A crítica é muito consciente; a confiante permite o tiro fluir de forma quase inconsciente.


Na abordagem crítica vivenciamos e preparamos nosso “atirador executor”, enquanto na abordagem confiante vivenciamos nosso “atirador competidor”. O “competidor” é responsável por aprontar e liberar o “executor”, sem interferir no seu trabalho nem criticar o seu desempenho. Após prepará-lo, simplesmente o assiste em ação, dentro do que ele foi treinado para fazer, tiro a tiro. Dessa forma, tem autonomia apenas para interrompê-lo.


Assim, o FT em ambas as situações, mantém sua essência, alterando sua forma de acordo com o momento vivido. Hora crítica, hora confiante.


Quando aprendemos ou treinamos um fundamento, o FT é a atenção crítica sobre a realização do mesmo, possibilitando atingirmos e mantermos o estado mental ideal para o aprendizado e treinamento da habilidade motora.


Quando executamos o processo contínuo, o FT é a atitude de atenção confiante na preparação e na observação da execução do processo.


Entender essa diferença é fundamental para chegarmos ao estado ideal de fluência, ou seja, o nível de competência inconsciente que nos permite realizar 100% dos disparos como processos de “Tiro Certo”.


Conseqüentemente, o FT está diretamente ligado à disciplina e à atitude mental do atleta, seja durante os exercícios de treinamento, seja durante a realização de um teste pedagógico ou competição.


Durante um exercício de treinamento, acompanhar com toda a atenção sua execução do início ao fim é, a meu ver, mais fácil de compreender. Talvez, o que poucos têm consciência é que ao fazê-lo, estão exercitando também o FT.


A confusão ocorre quando se trata do FT no processo contínuo do disparo.


Nesse caso, na maioria das vezes é simplificado pela manutenção da atenção no alinhamento da figura alça/massa por um espaço de tempo após o disparo.


Isso leva o atleta a acreditar que basta manter-se atento à figura de visada para executar corretamente o FT. É um engano, ou melhor, um grande erro.


Você pode manter-se atento à figura e estar dividindo essa atenção com outros pensamentos, como por exemplo, o resultado do último disparo ou o resultado do disparo em andamento.


A atenção exclusiva na figura também pressupõe que o processo só se inicia no momento em que passamos a observá-la, o que também está errado.


Como falamos no início, o FT é na realidade, a atitude correta de execução do próprio processo do Tiro Certo. Ele começa no momento em que iniciamos a sua preparação e termina (agora sim), um momento após o disparo ocorrer.


Cabe lembrar que o Tiro Certo, por sua vez, é um processo contínuo, composto de habilidades motoras treinadas em separado, e executadas de maneira concatenada e inconsciente, porém sob a nossa observação e aprovação.


Portanto, falar do FT é falar do processo do Tiro Certo como um todo, o qual reúne posição, empunhadura, respiração, visada e acionamento, em uma ação única, contínua e inconsciente.


Sei que não é fácil para o iniciante compreender a essência do FT, pois só irá percebê-lo em sua plenitude ao atingir o estado de competência inconsciente.


Mas, desde o início, o FT pode e deve ser treinado, pois só assim irá se tornar futuramente um hábito.


Como vimos no artigo “Primeiro aprender, depois Treinar”, a distração é a causa principal, tanto dos erros de aprendizagem como do desenvolvimento de hábitos incorretos. Não há como aprender uma habilidade motora sem dispensar à sua preparação e execução, 100% da nossa atenção.


Deste modo, já no aprendizado de cada fundamento treinamos o FT, mantendo 100% da atenção no que se está realizando.


Nessa fase, o FT começa na preparação do modelo mental da habilidade em aprendizado, continua na execução da mesma, e se prolonga durante a comparação da ação executada com o referido modelo, possibilitando a retro-alimentação e correção oportuna da sua execução.


A manutenção do nível de qualidade da atenção na fase de aprendizado, não só garante a qualidade do hábito desenvolvido, como reduz em muito o tempo de aprendizado. Essa redução nos permite iniciar antecipadamente também a fase de treinamento, e conseqüentemente, atingir desempenhos de alto rendimento em menor espaço de tempo. Mas, e a tal atenção na figura da alça/massa, o que tem a ver com o FT?


No artigo sobre “Visada”, vimos que: “Manter, durante todo o processo do disparo, a figura da alça/massa alinhada dentro da zona de visada, garante um agrupamento de impactos no alvo proporcional à amplitude do seu arco de movimento, desde que não cometa erros de acionamento”.


A figura alça/massa funciona, a partir do momento que passamos a observá-la, como o “monitor” do processo Tiro Certo. Ocupando 100% da nossa mente consciente, a observação da sua imagem possibilita não só executar os demais fundamentos de forma inconsciente como impede o assédio de pensamentos inoportunos.


Chamo-a de “monitor do processo” porque é através da sua imagem que assistimos sua correta execução, e da mesma forma, quando algum fundamento apresenta “erro de execução”, é também através da sua imagem que somos alertados para interromper o processo, refugando o disparo.


E o que é então o FT até esse momento em que passamos a atenção para a figura alça/massa?


Como foi dito, é a atitude de total atenção que assumimos já na preparação para a execução do processo. No momento em que iniciamos nossa “lista de verificação”, simultaneamente à rotina respiratória, a adoção do tônus muscular adequado (posição interior), o acerto da empunhadura (posicionamento da mão e pressão), a colocação acertada do dedo sobre a tecla do gatilho, ativando a firmeza do pulso, repassando mentalmente (se possível fisicamente) a flexão correta do dedo indicador, na definição clara da tarefa a ser executada (alça e massa alinhada antes, durante e depois do disparo), na produção do estado de confiança e certeza na capacidade de executá-la.


Ele se inicia na “preparação para decolagem” e prossegue:


Com a certeza absoluta de que faremos um Tiro Certo, elevamos o braço acima do alvo, enquanto respiramos normalmente. A subida deve ser natural, mas mantendo a firmeza do pulso e a pressão da empunhadura. Ao chegar ao ponto alto do movimento, aguarda-se por um instante o corpo estabilizar enquanto alinhamos a figura alça/massa. Sem perder o ritmo natural da respiração, abaixa-se o braço, “pousando” a figura alça/massa na zona de visada, num movimento reto, natural e firme como o de subida.


Cabe lembrar que a chegada à zona de visada deve coincidir com uma expiração, que a partir desse ponto é interrompida ou mantida laminar, até o final do processo.


Com a figura na zona de visada, assistimos a diminuição do arco de movimento, enquanto que de forma inconsciente, o dedo indicador aumenta independente e continuamente sua força sobre a tecla do gatilho, na forma que foi treinado.


Sem interferir, assistimos ao Tiro Certo, mantendo apenas nossa atitude de total atenção antes, durante e depois do disparo.


O Tiro Certo, quando executamos de forma correta o Follow-through, não é realizado, é assistido, dando-nos a certeza que algo especial ocorreu.